terça-feira, 9 de dezembro de 2025

 

A MÚSICA E O INSTANTE MÁGICO

(REED)

By Celso Ghebz Ghelardino Gutierre

Há alguns anos Douglas vivia só. Paula, seu grande amor de adolescência havia deixado esta existência e seus dois filhos Gabriel e Carla moravam no exterior.

Aproximava-se o Natal e aquelas lembranças dominavam seus pensamentos.

Lembrava-se, como se fosse há apenas alguns dias, de quando a havia visto pela primeira vez, na escola. Ele estava na quadra de “volleyball” quando ela surgiu diante do sol poente. O contorno de seu corpo estava envolvido pela luz alaranjada da Estrela diurna, seus cabelos, castanho-escuros, longos e lisos moviam-se ao sabor do vento, seu andar seguro e delicado demonstrava segurança. A troca de olhares foi inevitável, pois ele estava encantado, ela sorriu e abaixou a cabeça, ainda bem, pois assim, talvez, ela não tenha percebido como ficara enrubescido...

Como ele faria para falar com ela? Comentou com Laerte, amigo e colega de escola, sobre sua dúvida, que o aconselhou a aproximar-se dela na “Festa das Nações” que aconteceria no sábado daquela mesma semana. Era o que faria. E, se aproximaria através do Correio Elegante.

Conversaram bastante na festa. Mais tarde, ainda naquela noite em casa, a lembrança dela não o deixava dormir, aqueles olhos quase negros, demonstravam sinceridade... Ele estava apaixonado!

Lembrou-se, também, do convite que ela lhe fizera para a festa de seu aniversário de 14 anos. E, da sua dúvida para lhe comprar um presente.

Mas, como o céu é cúmplice dos enamorados, o cupido sussurrou-lhe: presentei a garota com um buquê de rosas vermelhas. E assim o fez. Foi o presente o qual ela mais gostou.

Fazia muito tempo, mas era tão claro em sua mente que parecia ter acontecido ontem.

Normalmente seus filhos voltavam nessa época do ano, mas desta vez não conseguiriam.

Douglas preparou uma ceia simples, apenas para si mesmo. Decidiu que iria utilizar o momento de solidão na noite de Natal para aproveitar ao máximo suas lembranças.

Hoje, pensou, nada de altas risadas, apenas o som de músicas de Natal. Objetivando um clima intimista de festividade e nostalgia.

Montou sua mesa com alguns pratos, entre os quais, frutas secas e um bom vinho.

E, claro, colocou algumas antigas músicas natalinas.

Antes, porém, ao som de “Silent Night” que, aliás, ouviu diversas vezes naquela noite, leu o conto de Leon Tolstói, “Onde existe amor, Deus aí está”. Se empolgou tanto que o leu em voz alta.

O ambiente que já estava leve ficou, como que, tocado por algo sublime.

Por vezes seus olhos marejavam de emoção.

Pensava no encanto daquele momento que, embora sozinho, lhe acariciava a alma.

Em determinado momento, a cantiga de Natal “Silent Night” tornou-se mais bela do que nunca... um instante mágico em que a intensidade da música atingiu o seu auge, gerando uma experiência transcendente.

No dia seguinte pela manhã, Laerte bateu à porta para lhe dar um abraço de Natal. Insistiu, mas ninguém veio atendê-la, embora o carro estivesse na garagem. Percebendo que a porta estava destrancada entrou.

Ao chegar à sala de jantar vê o corpo de Douglas inerte no chão, rapidamente debruça-se para auscultar seu coração, mas nada ouve... Douglas fizera a sua última viagem. Ao se levantar, observou que o rosto dele parecia sorrir, ao seu lado havia uma rosa vermelha, o ambiente estava impregnado de perfume, um perfume de mulher, seu aroma era conhecido, mas de quem seria?

Lembrou-se então, a rosa vermelha evocava o buquê de rosas, e o aroma no ar, o preferido de Paula...

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