ONDE EXISTE
AMOR, ALI DEUS ESTÁ
MARTIM O SAPATEIRO (2ª parte)
Uma alegria interior, pura, indizível, começou a fluir de
seu coração. Não mais se lamentava. Ao contrário, erguia louvores ao Criador.
Ele, que antes ia às tavernas, nos feriados, tomar alguma bebida com algum
conhecido, e saía “alegre” demais, dizendo besteiras e falando mal dos outros,
tornou sua vida calma e serena, dedicada ao trabalho e aos Evangelhos. Certa
noite Martim se absorveu na leitura até altas horas da noite lendo o Cap. VI de
Lucas.Tirou os óculos, apoiou-se na mesa e pôs-se a pensar, comparando sua vida com aquelas verdades: “Estou edificando minha casa sobre rocha? Ou sobre a areia das coisas vãs? ”
Seu coração ardia de fé e lamentava que tantas vezes ainda
caísse em tentação.Enveredou pelo Cap. VII e se deteve no episódio em que um
fariseu convidou Jesus à sua casa e como uma mulher pecadora lavou os pés do
Mestre com lágrimas, enxugando-os com seus cabelos; como Ele a libertou; como
ensinou ao fariseu que na realidade ela dera muito mais. Martim se sentiu como
o fariseu. Como trataria o Mestre se Ele o viesse visitar?
Já cansado, sem perceber, adormeceu. Então acordou em
sobressalto, meio tonto, como uma voz que lhe dizia: “Martim, ó Martim!”
Olhou para todos os lados e não viu ninguém. Então a voz
tornou, agora com toda a clareza: “Escuta, Martim. Amanhã é meu dia. Olha bem
para a rua, que virei visitar-te!”
Martim se levantou, esfregando os olhos. Era sonho ou realidade? Então se lembrou que era véspera de natal. Apagou a lamparina, orou e dormiu.
Levantou-se antes do amanhecer, acendeu o fogo e fez uma
sopa com repolho e beterraba, acendeu o bule, vestiu o avental e foi terminar
uns consertos. Mas o trabalho não rendia. Pensava nas palavras que ouvira de
madrugada e repetidamente olhava para a calçada. “Afinal, tudo pode acontecer”
– pensava ele.
Alguém parou defronte à janelinha do porão. Pelas botas,
Martim reconheceu que era Stephan, um velho soldado reformado. Morava de favor
num quartinho de seu vizinho, comerciante. Estava com uma pá, tirando a neve da
calçada. Depois parou, assoprando as mãos enregeladas. Tremia de frio. Martim
bateu com os dedos na vidraça e fez-lhe sinal para que entrasse:
- Vem esquentar-te um pouco.
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