quinta-feira, 27 de abril de 2023

O Fio da Navalha

By Celso Ghebz Ghelardino Gutierre

Logo após a 1ª Grande Guerra, retorna à sua pátria, um jovem piloto de avião chamado Larry. E, como muitos veteranos de guerra, ele também traz consigo um trauma: Um grande amigo, no último dia do conflito, morre em seu lugar, salvando-o.

Tal experiência o leva a pensar profundamente sobre os objetivos da vida.

“Encontrar o verdadeiro significado da existência o faz deixar a noiva Isabel e retornar para Paris, onde estivera durante o conflito. Lá, permanece por um ano executando diversas atividades profissionais até trabalhar em uma mina de carvão, onde conhece um ex-padre que o aconselha a ir para a Índia, pois entende que lá poderá encontrar sua resposta.

Assim, parte Larry para encontrar um místico no Himalaia.

Quando se encontram o mestre pergunta-lhe: - O que o trouxe aqui?

- Vim aprender. Venho procurando algo... Algo que não consigo pôr em palavras. Ouvi dizer que talvez possa me guiar, responde Larry.

- Deus é nosso único guia. Mas, se conversarmos, talvez ele me mostre como ajudá-lo, pondera sensato o mestre.

Larry, completa, um tanto quanto chateado: - Para meus amigos, sou um boa vida irresponsável. Nem aqueles a quem amo entendem o que procuro.  Estudei, viajei, li tudo que podia e nada parece satisfazer-me. Como todo mundo, quero ser bem-sucedido, melhorar. Mas não quero o que o mundo chama de sucesso. Por algum motivo, perdi a confiança nos valores vigentes, de me entusiasmar com as ideias de abrir um negócio e melhorar de vida cada vez mais. Isso me dá grande ansiedade, apressa minha busca. Eu sei que se encontrar aquilo que persigo, será uma coisa para repartir com os outros, mas como achá-la, e onde? 

- Essa inquietude e confusão não são únicas, filho. E continuará, enquanto o homem procurar seus ideais por meios errados, A felicidade não poderá existir, até aprendermos que ela vem de dentro de nós. Está escrito que o homem sábio vive graças a si mesmo, pois ele é Deus que mora no seu coração, este é o caminho da calma, da indulgência, da compaixão, do altruísmo e da paz eterna...

- Não é fácil, mestre.

- Não! A estrada da salvação é difícil de atravessar. Difícil como se fosse “o fio de uma navalha”. Porém uma coisa eu afirmo e que todas as religiões repetem: Em todos nós existe uma centelha da bondade infinita que nos criou, quando deixamos esta Terra nos unimos a ela, como a gota da chuva que cai do céu finalmente se reúne ao mar que lhe deu a origem.

- Posso ficar aqui? questiona Larry.

- Claro que sim. Nossa vida é muito simples. Temos livros. E podemos conversar. Trabalhar no campo, se quiser.

Nós indianos, acreditamos que há três caminhos que levam a Deus.

•           O primeiro é o da fé e adoração;

•           O segundo é o do trabalho executado por amor a Deus;

•           O terceiro caminho é o do conhecimento e da sabedoria.

Você escolheu o terceiro. Mas descobrirá no fim que os três são apenas um.

Após algum tempo dedicando-se ao estudo e ao aprendizado, Larry conversa com o mestre que lhe diz: “Você já assimilou todo o conhecimento que era possível, agora é a hora de você se isolar do mundo, por um tempo. Às vezes, acontecem coisas muito estranhas quando se está nas montanhas, sem viva alma por milhas e milhas em volta, nada acima de você além do céu e de Deus. 

- Que tipo de coisas?

- Isso meu filho, depende de você!

Você irá encontrar um pequeno abrigo lá em cima. Quando eu tiver um tempo, talvez eu lhe faça uma visita.

E, de fato, depois de algum tempo o mestre vai até ele.

Quando o vê Larry pausadamente lhe diz: - O senhor estava certo. Algo muito estranho me aconteceu.

- Eu sei, mas diga-me.

- Foi naquele momento em que a noite termina e o dia começa, quando o mundo parece tentar se equilibrar. Aos poucos, a luz penetrou a escuridão, como um ser misterioso e belo saindo de trás das árvores. E os primeiros raios surgiram. As montanhas, a neblina no topo das árvores. Nunca havia sentido ou visto algo parecido, diz Larry maravilhado.

- Eu sei, venho aqui às vezes, lhe diz o mestre.  

Larry prossegue inspirado: - É como se não tivesse mais corpo. Como se flutuasse no ar. Tudo que era confusão de repente, ficou claro. É como se adquirisse um conhecimento sobre-humano e tivesse me libertado. Achei que, se aquilo durasse mais um minuto eu morreria. Mas morreria de bom grado se pudesse prolongar aquele momento. Naquele momento único eu senti...

O mestre se antecipa: - Que você e Deus eram um só.

Larry acena com a cabeça confirmando e depois diz: - Sim...    Eu poderia ficar aqui para sempre.

- Não. Você precisa voltar. Está pronto para voltar. Não é preciso se isolar, filho. É preciso viver no mundo e amar as coisas dele. Não por elas, mas pelo que “as coisas” têm de divino. Seu lugar é com os seus.

Você é um dos bem aventurados. A graça de Deus lhe concedeu ver a beleza infinita do mundo, que nada mais é do que o reflexo da beleza de Deus. Essa alegria, a visão dessa beleza, permanecerá com você nítida, até sua morte”.

Deus nos fala de muitas formas, entre elas através de bons filmes. Este é um deles, “The Razor's Edge” (O Fio da Navalha), de 1946, baseado no romance homônimo, de 1944, de W. Somerset Maugham. O texto contém os diálogos entre o personagem “Larry”, interpretado pelo ator Tyrone Power e o mestre místico, interpretado por Cecil Humphreys.

8 comentários:

  1. Texto maravilhoso! Obrigada por me repassar essa linda história.

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  2. Ótimo para reflexão

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  3. Que bela estória! O filme deve ser fantástico.

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  4. Belo história!
    As vezes precisamos nos desligar do mundo de informações existentes ao nosso redor, para que na simplicidade enxerguemos “ o Tudo”, que está a nossa disposição em todos os momentos; Deus!!

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  5. Sem dúvida, precisamos desligar do corre-corre para que possamos viver verdadeiramente, e não apenas passar pela vida.

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