quinta-feira, 30 de agosto de 2018

O Essencial do Caminho de Santiago (El Camino)
By Celso Ghebz Ghelardino Gutierre

Introdução
O Caminho de Santiago é uma síntese da vida. Ele é cheio de energia, de sinais, tal qual a própria vida. A diferença é que nele a percepção é potencializada, porque estamos com a sensibilidade aflorada para isso. Se mantivermos o mesmo padrão de receptividade, também no nosso dia-a-dia, podemos descobrir muitas coisas. É preciso visualizar os sinais que, incessantemente o Universo nos envia, disponibilizando seus segredos em forma de energia potencial (a energia armazenada e que se manifesta através de realizações), a espera de nossa compreensão e sensibilidade para se tornar concreta.

As motivações
Tudo foi muito rápido, decidi em maio de 2014 e em 31 de agosto do mesmo ano estava eu embarcando para a Espanha.
A possibilidade de conhecer parte de país, percorrendo toda sua extensão de leste para a oeste a pé, me empolgava notavelmente. A possibilidade da reflexão despreocupada e sem compromissos se concretizou.
·         Visões (Alguns dos encantos do Caminho)
Alguns relatam experiências extra-sensoriais, entretanto, a do peregrino Daniel de Ávila me chamou especial atenção. Resumidamente, foi assim que tudo aconteceu: Entre Carrion de Los Condes e Terradillos de los Templarios, boa parte do caminho corta plantações de trigo. Em certo trecho ele sentiu enorme solidão, pois em qualquer direção que olhasse, não havia ninguém, tampouco animais, apenas interminável plantação de trigo. De repente, ao seu lado direito, uma névoa azulada pairava sobre a plantação; lentamente curiosa formação de imagens retratando uma cena fantástica de batalha se formou. Pelo estandarte à frente pôde identificar a XI Legião Romana enfrentando bárbaros. A brutal realidade das cenas e sons dava vida ao sangrento combate. Gritos, choque de metais, o impressionaram profundamente. A visão demorou aproximadamente vinte minutos e ao término os últimos romanos foram degolados pelos vencedores. Temendo reação negativa de quem ouvisse sua história, não a comentou com ninguém, não obstante ela povoasse seus pensamentos.  Após o término da sua peregrinação, permaneceu mais algum tempo na Espanha e na passagem por Toledo, ainda impactado pela visão, procurou uma das mais completas bibliotecas, queria saber se o que vira estava documentado. E, estava. A XI Legião havia sido enviada para render tropas estacionadas na Iria Flavia (atual Compostela), quando foi destruída pelos bárbaros. Tão logo a notícia chegou a Roma, foi ordenado uma retaliação violentíssima, feito que não deixou sobreviventes. Foram convocadas quatro legiões, além da IX Legião estacionada na França. Uma grande força militar do mais poderoso exército da época, cada legião romana possuía, em média, cerca de seis mil soldados da infantaria, mais trezentos da cavalaria.

Origem do nome
Santiago localiza-se na região da Galícia, onde o idioma espanhol se aproxima bastante do nosso português, foi lá que, segundo a lenda, um eremita teria visto uma intensa luz, provavelmente uma estrela cadente, sobre um campo próximo. Tão logo tomou conhecimento do fato, o bispo ordenou uma investigação que resultou com o achado de ossos humanos, tidos como do apóstolo Thiago, que havia estado na região pregando o Evangelho. Aqui a história fica mais estranha, pois Thiago após voltar à Palestina foi decapitado pelos romanos e enterrado na região. Porém seus discípulos recolheram seus restos mortais e o colocaram em uma barca que, não se sabe como, teria chegado ao litoral da Galícia. E a luz, aproximadamente oitocentos anos depois, teria revelado onde encontravam-se os ossos do apóstolo. Ergueu-se no local inicialmente uma capela que, mais tarde, tornar-se-ia catedral na futura cidade de Santiago de Compostela, nome derivado da expressão “São Tiago dos campos estelares”.

O que encontrei por lá
Chegando em Madrid, permaneci no enorme Aeroporto Madrid-Barajas (Adolfo Suárez), local da conexão para Pamplona, cidade onde iria pernoitar.
A primeira experiência, em solo espanhol, foi um pequeno incidente no local de hospedagem. Eu havia saído para comprar água por volta das 22h e quando voltei peguei um dos dois elevadores, equivocadamente aquele que dava acesso a apartamentos com moradores. Quando tentava abrir a porta com minha chave, o que, obviamente, não consegui, ela se abriu de dentro para fora e me vi em situação constrangedora, pois os moradores acreditaram que eu estava tentando invadir o apartamento deles. Envolto pela tensão momentânea expliquei o que acontecera, embora seus olhares demonstrassem dúvidas quanto as minhas intenções. Me despedi um tanto quanto desconcertado e saí rapidamente.
No dia seguinte por volta das 13h eu embarcava no ônibus com destino a “Saint Jean Pied de Port”, nos Pireneus, França. Uma pequena cidade, precisamente um vilarejo, com aproximadamente 1500 habitantes. A sensação foi a de que o ônibus havia percorrido uma estrada no tempo e voltado ao século XVIII. As construções, as vielas e a pálida iluminação noturna, me remeteram à lembrança das páginas de “Os Três Mosqueteiros” de Alexandre Dumas.
Dia 03 de setembro, iniciei “El Camino”, entre verdes campos e pinheiros, pelos Pirineus, percorrendo o chamado caminho real, em grande parte, o mesmo que foi feito por Napoleão Bonaparte para atacar Portugal em 1808, o que levou a corte de Don João VI e família real, seus nobres e servos a fugirem para o Brasil.

Pequenos vilarejos
As lembranças são muitas. Passei por centenas de pequenos vilarejos, na maioria secular. Vi uma vida singela, como não imaginava.  Com frequência, encontrava bem cedo, pelas manhãs, padeiros buzinando seus furgões diante das casas para entregar pão. Pequenas mercearias onde eu comprava pão, frutas.  Coisas assim. Experiências que eu não havia vivido.

Amizades novas
Diferente e admirável foram as amizades conquistadas no percurso. Onde todos se preocupavam com todos, bastava parar e tirar o calçado e logo alguém parava  perguntando: “Hey, estás bien?”, ou então, “Are you fine”?
A diferença cultural foi fantástica. Conheci japoneses, coreanos, neozelandês, alemães, escoceses, franceses, italianos, espanhóis, portugueses, canadenses, americanos, mexicanos e brasileiros. Particularmente o encontro com os coreanos foi marcante. Logo após uma curva, à sombra de frondosa árvore, um grupo de oito jovens coreanos, moças e rapazes, refaziam suas energias para seguirem viajem. Lá, eu e alguns amigos, incluindo brasileiros, que conheci no Caminho, paramos no intuito de aproveitarmos o notável guarda-sol natural. Fomos recebidos com sorrisos e com bela e relaxante melodia, cujas notas musicais saiam de uma flauta. Após terminarem  pediram para que cantássemos algo do Brasil; diante do acanhamento do grupo, eu puxei “Garota de Ipanema”, imediatamente eles se empolgaram identificando a pérola de Tom Jobim.

Monumentos
As construções medievais, castelos e igrejas, heranças dos romanos, dos visigodos (um dos povos germânicos) e dos muçulmanos, além, claro, das obras do gênio da arquitetura Antoni Gaudi, maravilharam, por tempo integral, minha visão.
Embora o objetivo fosse a chegada à Catedral de Santiago de Compostela, em verdade confirmei a máxima: “Mais importante do que o destino é o caminho, é aquilo que se aprende ao percorrê-lo”.

O misticismo do Caminho
O caminho é místico, energeticamente dá para sentir, embora difícil de descrever.
Boa parte do seu percurso foi usado pelas Legiões Romanas, por peregrinos na idade média que não podiam ir a Jerusalém, no período em que estava tomada pelos muçulmanos.
Sensitivos mencionam o poder das energias telúricas localizadas paralelamente ao caminho. O pensamento de cada peregrino somando-se a tudo isso faz do percurso algo marcante, cuja lembrança pode ser definida como um momento mágico.

Burgos, uma emoção à parte    
Cidade que atiçava minha ansiedade. Terra de Don Rodrigo Diaz de Vivar (lê-se Bivar), também conhecido por El Campeador (O Campeão), depois de ter morto em luta o primeiro cavaleiro do rei (Jimeno Garcês) do Reino de Navarra, porém, tornou-se célebre através da designação “El Cid” (O Senhor), como passou a ser aclamado, após as batalhas com os inimigos mouros que o tinham em grande respeito e admiração. Rodrigo nasceu em Burgos, capital do Reino de Castela. Entre seus principais feitos consta o fato de ter obrigado o príncipe Alfonso a jurar não ter envolvimento na morte de seu irmão, príncipe Sancho, em disputa pelo trono após a morte do pai, rei Fernando I de Leão e Castela, fato que levou Sancho a decretar seu desterro. Nesse período os Mouros aumentavam seu domínio sobre a península ibérica, El Cid (exilado) então organizou um grande exército e os enfrentou reconquistando Valência, fato que fez com que o Rei Alfonso o perdoasse. El Cid governou Valência com justiça e bondade, inclusive para com os mouros. Todavia, novo exército de mouros vindos da África tentou tomar o Castelo de Valência, e num desses combates El Cid é ferido mortalmente. Os mouros confiantes que o grande guerreiro estivesse morto prepararão um grande ataque. El Cid, percebendo a gravidade do momento, fez o último pedido a Dna. Jimena (lê-se Ximena), sua esposa; que seu corpo fosse amarrado ao seu cavalo (segurando uma lança), criando a ilusão de que era imortal. Quando os gigantescos portões do castelo são abertos, surge a marcante e inabalável figura de El Cid, com sua armadura e seu elmo metálicos, reluzindo a luz do sol, tal qual um guerreiro divino. O pânico nas tropas mouras é generalizado, que já não ouvem mais as ordens de seus líderes e batem em retirada desordenada.  É nesse exato momento que Don Rodrigo sai da história e transforma-se em lenda.
Há controvérsias sobre a vida de Don Rodrigo. Existem aqueles que afirmam que ele não era exatamente o herói lendário. Eu, particularmente, mantenho minha crença no que foi passado de geração para geração e fico com a lenda!

Grandes reflexões
O Caminho, com seus, aproximadamente, oitocentos quilômetros, levam a profundas reflexões sobre o significado da vida e de como reagimos a ela. Tudo o que levamos para essa jornada diária, (sete dias por semana, caminhando diariamente, por volta de, 26,5 km), uma mochila com o básico, o tênis para caminhada e dinheiro suficiente para refeições e pernoite em albergues. Nada mais.  

Mudanças à vista
O Caminho tem energia, mistérios, segredos e histórias. Sua origem, ao menos parte dele, remonta o tempo do Império Romano, por onde as Legiões Romanas deslocavam-se não só para percorrer a Espanha, então chamada de Hispânia pelos romanos, mas igualmente para chegarem até Finisterra, ou em latim, “finis terrae”, o “fim da terra”.
Caminho usado, mais tarde, por peregrinos que, não podiam chegar a Jerusalém, devido ao cerco mouro. Assim como no islamismo onde todo fiel deve ir a Meca, ao menos uma vez na vida, no cristianismo recomendava-se conhecer Roma e Jerusalém e quando da impossibilidade de chegar a Terra Santa, Santiago de Compostela, passou a ser opção viável.
Ao longo do Caminho encontra-se, ainda hoje, muitas pequenas fortalezas militares de pedra, onde ficavam alojados cavaleiros armados, inclusive os cavaleiros templários, guardiães do caminho. Faziam a defesa contra salteadores e por vezes contra investidas mouras. Em grande quantidade vê-se, também, igrejas e capelas, símbolos da proteção espiritual aos fiéis.
A música celta predomina, especialmente na região da galícia, onde é possível ouvi-la após uma curva ou ainda em Santiago, principalmente nas imediações da Catedral.
Sensações que falam à alma, despertando sentimentos de profunda reflexão que, por sua vez, estimulam mudanças de valores.

Ultimando
O Caminho para mim foi feito em um momento importante da minha vida. Possibilitou aguçar minhas percepções que vinham em crescente afloramento. Concedeu-me local, tempo e capacidade para entender aquilo que os livros e os anos de vida ainda não haviam me proporcionado.  

3 comentários:

  1. O relato da experiência inserindo comentários históricos ficou muito interessante. Gostei bastante e me senti envolvida, pensando em buscar possibilidades de ter momentos como aqueles relatados para dar mais sentido a vida.

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    1. Pode ter certeza Marcia, que você irá encontrar. E, boa viagem! Obrigado e beijos de seu ex-paciente e atual amigo!

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  2. Pode ter certeza Marcia, que você irá encontrar. E, boa viagem! Obrigado e beijos de seu ex-paciente e atual amigo!

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