O Essencial do Caminho de Santiago (El Camino)
By Celso Ghebz
Ghelardino Gutierre
Introdução
O Caminho de Santiago é uma síntese da vida. Ele é cheio de
energia, de sinais, tal qual a própria vida. A diferença é que nele a percepção
é potencializada, porque estamos com a sensibilidade aflorada para isso. Se
mantivermos o mesmo padrão de receptividade, também no nosso dia-a-dia, podemos
descobrir muitas coisas. É preciso visualizar os sinais que, incessantemente o
Universo nos envia, disponibilizando seus segredos em forma de energia
potencial (a energia armazenada e que se manifesta através de realizações), a
espera de nossa compreensão e sensibilidade para se tornar concreta.
As
motivações
Tudo foi muito
rápido, decidi em maio de 2014 e em 31 de agosto do mesmo ano estava eu
embarcando para a Espanha.
A possibilidade de
conhecer parte de país, percorrendo toda sua extensão de leste para a oeste a
pé, me empolgava notavelmente. A possibilidade da reflexão despreocupada e sem
compromissos se concretizou.
·
Visões (Alguns dos encantos do
Caminho)
Alguns relatam
experiências extra-sensoriais, entretanto, a do peregrino Daniel de Ávila me
chamou especial atenção. Resumidamente, foi assim que tudo aconteceu: Entre
Carrion de Los Condes e Terradillos de los Templarios, boa parte do caminho
corta plantações de trigo. Em certo trecho ele sentiu enorme solidão, pois em
qualquer direção que olhasse, não havia ninguém, tampouco animais, apenas
interminável plantação de trigo. De repente, ao seu lado direito, uma névoa
azulada pairava sobre a plantação; lentamente curiosa formação de imagens
retratando uma cena fantástica de batalha se formou. Pelo estandarte à frente
pôde identificar a XI Legião Romana enfrentando bárbaros. A brutal realidade
das cenas e sons dava vida ao sangrento combate. Gritos, choque de metais, o
impressionaram profundamente. A visão demorou aproximadamente vinte minutos e
ao término os últimos romanos foram degolados pelos vencedores. Temendo reação negativa
de quem ouvisse sua história, não a comentou com ninguém, não obstante ela
povoasse seus pensamentos. Após o
término da sua peregrinação, permaneceu mais algum tempo na Espanha e na
passagem por Toledo, ainda impactado pela visão, procurou uma das mais
completas bibliotecas, queria saber se o que vira estava documentado. E,
estava. A XI Legião havia sido enviada para render tropas estacionadas na Iria
Flavia (atual Compostela), quando foi destruída pelos bárbaros. Tão logo a
notícia chegou a Roma, foi ordenado uma retaliação violentíssima, feito que não
deixou sobreviventes. Foram convocadas quatro legiões, além da IX Legião
estacionada na França. Uma grande força militar do mais poderoso exército da
época, cada legião romana possuía, em média, cerca de seis mil soldados da
infantaria, mais trezentos da cavalaria.
Origem
do nome
Santiago localiza-se
na região da Galícia, onde o idioma espanhol se aproxima bastante do nosso
português, foi lá que, segundo a lenda, um eremita teria visto uma intensa luz,
provavelmente uma estrela cadente, sobre um campo próximo. Tão logo tomou
conhecimento do fato, o bispo ordenou uma investigação que resultou com o
achado de ossos humanos, tidos como do apóstolo Thiago, que havia estado na
região pregando o Evangelho. Aqui a história fica mais estranha, pois Thiago
após voltar à Palestina foi decapitado pelos romanos e enterrado na região.
Porém seus discípulos recolheram seus restos mortais e o colocaram em uma barca
que, não se sabe como, teria chegado ao litoral da Galícia. E a luz, aproximadamente
oitocentos anos depois, teria revelado onde encontravam-se os ossos do
apóstolo. Ergueu-se no local inicialmente uma capela que, mais tarde, tornar-se-ia
catedral na futura cidade de Santiago de Compostela, nome derivado da expressão
“São Tiago dos campos estelares”.
O
que encontrei por lá
Chegando em Madrid,
permaneci no enorme Aeroporto Madrid-Barajas (Adolfo Suárez), local da conexão
para Pamplona, cidade onde iria pernoitar.
A primeira
experiência, em solo espanhol, foi um pequeno incidente no local de hospedagem.
Eu havia saído para comprar água por volta das 22h e quando voltei peguei um
dos dois elevadores, equivocadamente aquele que dava acesso a apartamentos com
moradores. Quando tentava abrir a porta com minha chave, o que, obviamente, não
consegui, ela se abriu de dentro para fora e me vi em situação constrangedora,
pois os moradores acreditaram que eu estava tentando invadir o apartamento
deles. Envolto pela tensão momentânea expliquei o que acontecera, embora seus
olhares demonstrassem dúvidas quanto as minhas intenções. Me despedi um tanto
quanto desconcertado e saí rapidamente.
No dia seguinte por
volta das 13h eu embarcava no ônibus com destino a “Saint Jean Pied de Port”,
nos Pireneus, França. Uma pequena cidade, precisamente um vilarejo, com
aproximadamente 1500 habitantes. A sensação foi a de que o ônibus havia
percorrido uma estrada no tempo e voltado ao século XVIII. As construções, as
vielas e a pálida iluminação noturna, me remeteram à lembrança das páginas de
“Os Três Mosqueteiros” de Alexandre Dumas.
Dia 03 de setembro,
iniciei “El Camino”, entre verdes campos e pinheiros, pelos Pirineus,
percorrendo o chamado caminho real, em grande parte, o mesmo que foi feito por
Napoleão Bonaparte para atacar Portugal em 1808, o que levou a corte de Don
João VI e família real, seus nobres e servos a fugirem para o Brasil.
Pequenos
vilarejos
As lembranças são
muitas. Passei por centenas de pequenos vilarejos, na maioria secular. Vi uma
vida singela, como não imaginava. Com
frequência, encontrava bem cedo, pelas manhãs, padeiros buzinando seus furgões
diante das casas para entregar pão. Pequenas mercearias onde eu comprava pão,
frutas. Coisas assim. Experiências que
eu não havia vivido.
Amizades
novas
Diferente e admirável
foram as amizades conquistadas no percurso. Onde todos se preocupavam com
todos, bastava parar e tirar o calçado e logo alguém parava perguntando: “Hey, estás bien?”, ou então, “Are
you fine”?
A diferença cultural
foi fantástica. Conheci japoneses, coreanos, neozelandês, alemães, escoceses,
franceses, italianos, espanhóis, portugueses, canadenses, americanos, mexicanos
e brasileiros. Particularmente o encontro com os coreanos foi marcante. Logo
após uma curva, à sombra de frondosa árvore, um grupo de oito jovens coreanos,
moças e rapazes, refaziam suas energias para seguirem viajem. Lá, eu e alguns amigos,
incluindo brasileiros, que conheci no Caminho, paramos no intuito de
aproveitarmos o notável guarda-sol natural. Fomos recebidos com sorrisos e com
bela e relaxante melodia, cujas notas musicais saiam de uma flauta. Após terminarem
pediram para que cantássemos algo do
Brasil; diante do acanhamento do grupo, eu puxei “Garota de Ipanema”, imediatamente
eles se empolgaram identificando a pérola de Tom Jobim.
Monumentos
As construções medievais,
castelos e igrejas, heranças dos romanos, dos visigodos (um dos povos
germânicos) e dos muçulmanos, além, claro, das obras do gênio da arquitetura Antoni
Gaudi, maravilharam, por tempo integral, minha visão.
Embora o objetivo fosse
a chegada à Catedral de Santiago de Compostela, em verdade confirmei a máxima: “Mais
importante do que o destino é o caminho, é aquilo que se aprende ao percorrê-lo”.
O
misticismo do Caminho
O caminho é místico,
energeticamente dá para sentir, embora difícil de descrever.
Boa parte do seu
percurso foi usado pelas Legiões Romanas, por peregrinos na idade média que não
podiam ir a Jerusalém, no período em que estava tomada pelos muçulmanos.
Sensitivos mencionam o
poder das energias telúricas localizadas paralelamente ao caminho. O pensamento
de cada peregrino somando-se a tudo isso faz do percurso algo marcante, cuja
lembrança pode ser definida como um momento mágico.
Burgos,
uma emoção à parte
Cidade que atiçava
minha ansiedade. Terra de Don Rodrigo Diaz de Vivar (lê-se Bivar), também conhecido
por El Campeador (O Campeão), depois de ter morto em luta o primeiro cavaleiro
do rei (Jimeno Garcês) do Reino de Navarra, porém, tornou-se célebre através da
designação “El Cid” (O Senhor), como passou a ser aclamado, após as batalhas
com os inimigos mouros que o tinham em grande respeito e admiração. Rodrigo
nasceu em Burgos, capital do Reino de Castela. Entre seus principais feitos
consta o fato de ter obrigado o príncipe Alfonso a jurar não ter envolvimento
na morte de seu irmão, príncipe Sancho, em disputa pelo trono após a morte do
pai, rei Fernando I de Leão e Castela, fato que levou Sancho a decretar seu
desterro. Nesse período os Mouros aumentavam seu domínio sobre a península
ibérica, El Cid (exilado) então organizou um grande exército e os enfrentou reconquistando
Valência, fato que fez com que o Rei Alfonso o perdoasse. El Cid governou
Valência com justiça e bondade, inclusive para com os mouros. Todavia, novo
exército de mouros vindos da África tentou tomar o Castelo de Valência, e num
desses combates El Cid é ferido mortalmente. Os mouros confiantes que o grande
guerreiro estivesse morto prepararão um grande ataque. El Cid, percebendo a
gravidade do momento, fez o último pedido a Dna. Jimena (lê-se Ximena), sua
esposa; que seu corpo fosse amarrado ao seu cavalo (segurando uma lança),
criando a ilusão de que era imortal. Quando os gigantescos portões do castelo são
abertos, surge a marcante e inabalável figura de El Cid, com sua armadura e seu
elmo metálicos, reluzindo a luz do sol, tal qual um guerreiro divino. O pânico
nas tropas mouras é generalizado, que já não ouvem mais as ordens de seus
líderes e batem em retirada desordenada.
É nesse exato momento que Don Rodrigo sai da história e transforma-se em
lenda.
Há controvérsias
sobre a vida de Don Rodrigo. Existem aqueles que afirmam que ele não era
exatamente o herói lendário. Eu, particularmente, mantenho minha crença no que
foi passado de geração para geração e fico com a lenda!
Grandes
reflexões
O Caminho, com seus,
aproximadamente, oitocentos quilômetros, levam a profundas reflexões sobre o
significado da vida e de como reagimos a ela. Tudo o que levamos para essa
jornada diária, (sete dias por semana, caminhando diariamente, por volta de,
26,5 km), uma mochila com o básico, o tênis para caminhada e dinheiro
suficiente para refeições e pernoite em albergues. Nada mais.
Mudanças
à vista
O Caminho tem
energia, mistérios, segredos e histórias. Sua origem, ao menos parte dele,
remonta o tempo do Império Romano, por onde as Legiões Romanas deslocavam-se
não só para percorrer a Espanha, então chamada de Hispânia pelos romanos, mas
igualmente para chegarem até Finisterra, ou em latim, “finis terrae”, o “fim da
terra”.
Caminho usado, mais
tarde, por peregrinos que, não podiam chegar a Jerusalém, devido ao cerco mouro.
Assim como no islamismo onde todo fiel deve ir a Meca, ao menos uma vez na vida,
no cristianismo recomendava-se conhecer Roma e Jerusalém e quando da
impossibilidade de chegar a Terra Santa, Santiago de Compostela, passou a ser
opção viável.
Ao longo do Caminho
encontra-se, ainda hoje, muitas pequenas fortalezas militares de pedra, onde
ficavam alojados cavaleiros armados, inclusive os cavaleiros templários, guardiães
do caminho. Faziam a defesa contra salteadores e por vezes contra investidas
mouras. Em grande quantidade vê-se, também, igrejas e capelas, símbolos da
proteção espiritual aos fiéis.
A música celta
predomina, especialmente na região da galícia, onde é possível ouvi-la após uma
curva ou ainda em Santiago, principalmente nas imediações da Catedral.
Sensações que falam à
alma, despertando sentimentos de profunda reflexão que, por sua vez, estimulam
mudanças de valores.
Ultimando
O Caminho para mim foi
feito em um momento importante da minha vida. Possibilitou aguçar minhas
percepções que vinham em crescente afloramento. Concedeu-me local, tempo e
capacidade para entender aquilo que os livros e os anos de vida ainda não
haviam me proporcionado.
O relato da experiência inserindo comentários históricos ficou muito interessante. Gostei bastante e me senti envolvida, pensando em buscar possibilidades de ter momentos como aqueles relatados para dar mais sentido a vida.
ResponderExcluirPode ter certeza Marcia, que você irá encontrar. E, boa viagem! Obrigado e beijos de seu ex-paciente e atual amigo!
ExcluirPode ter certeza Marcia, que você irá encontrar. E, boa viagem! Obrigado e beijos de seu ex-paciente e atual amigo!
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