sexta-feira, 19 de novembro de 2021


Que saudade das matinês...

By Celso Ghebz Ghelardino Gutierre

Era domingo, aquele do “Pede cachimbo”, que nós falávamos pé de cachimbo, como se nascesse tal qual um vegetal...

E, lá ia eu em passo acelerado, com algumas revistas em quadrinho debaixo do braço, pois tinha pressa, não podia chegar atrasado.

Seria terrível perder a fila, onde acontecia a conversa despretensiosa sobre nossos heróis, bem como, a troca dos “gibis”.

Mas, não era perto, ficava, como dizíamos, lá no fim da vila... e olha que nem era, mas, naquele momento, eu garantiria que sim.

Apressado e sob o sol quente das 13h, eu nem atentava para os antigos casarões, com seus imensos jardins, tampouco para as grandes árvores das Ruas José Bonifácio e João Pessoa.

Mais um pouco e estava passando pelos fundos da Igreja Matriz, e finalmente eu chegava ao Cine Anchieta, uau...

Dezenas de garotos aguardavam para o início da sessão, falavam todos ao mesmo tempo, cada um alardeando a qualidade dos seus próprios gibis: do Cavaleiro Negro; Zorro (O Cavaleiro Solitário); Roy Rogers; Dom Chicote; Aí, Mocinho; Flecha Ligeira; O Rei da Polícia Montada; Buck Jones; Tom Mix; Rocky Lane e tantos outros.

Em dado momento, abrem-se as portas para os nossos sonhos, a fila começa a andar e em alguns minutos já estamos acomodados e ansiosos, as luzes se apagam, mas a algazarra continua, até que soa o gongo e o corre-corre dos atrasados, abraçados com suas pipocas e guloseimas.

A partir de aí impera o silêncio, até aparecer o herói nas telas, quando palmas, assobios quebram a breve inação.  Ah..., mas tinha, também, o famoso barulho dos pés batendo forte no assoalho, especialmente nas cenas em que os bandidos perseguiam vítimas indefesas, até que em dado momento a silhueta do herói (mocinho), montado em seu cavalo, despontava sobre a colina se contrapondo ao céu azul decorado com as pitorescas nuvens da Califórnia, confesso que a imagem impressionava. Manifestações espontâneas, mas, que criavam atmosfera mágica e de pura alegria...  Nas próximas três horas torcíamos pelos “mocinhos contra os bandidos”.

Adorava filmes, mas eu gostava mesmo era das histórias de cowboy.

As matinês apresentavam dois filmes com duração média entre 50 a 70 minutos cada e entre eles os prestigiados Seriados, filmes em capítulos de 15 a 20 minutos e em número que variava entre 12 e 18 episódios. Tinham forte apelo, pois no final de cada capítulo o herói (mocinho) passava por um grande desafio que, se fracassasse, lhe custaria a vida. Por vezes, era amarrado nos trilhos de uma ferrovia pouco antes de um trem “a toda velocidade” surgir; em outras pisava, sem perceber, em um alçapão que o fazia despencar em um precipício, ou ainda, quando fugia de uma gigantesca rocha que rolava em sua direção, aliás, os filmes da série Indiana Jones, foram inspirados, segundo palavras de George Lucas e Steven Spielberg, nos antigos seriados do cinema.

Saíamos do cinema envolvidos pela sua magia, a tal ponto que a realidade parecia ser a da telona. Nos dias seguintes, as brincadeiras eram sempre baseadas nas imagens projetadas na grande tela. Era quando eu colocava meu cinturão com dois coldres alojando dois revólveres de espoleta, arrumava um pequeno tapete (a minha sela) sobre um caixote que guardava zeloso, pois não podia ficar sem “meu cavalo”. E assim, na minha imaginação, cavalgava pelas trilhas empoeiradas do velho oeste, enfrentando malfeitores e promovendo a justiça.

Sou grato por ter vivido uma infância repleta de bons sonhos...

Aliás, muitos anos depois, uma amiga me falou de um clube na cidade de São Paulo, chamado CAW (Clube Amigos do Western), onde me associei e pude não só rever os antigos filmes da infância e, também, me caracterizar tal qual meus antigos heróis.


Meus agradecimentos à amiga Sara Fogaça, pela foto de abertura e ao amigo Darci Fonseca, pela foto Westernland.


 


 


 

2 comentários:

  1. Boa noite caro Celso!

    Eu com poucos anos a menos, não peguei essas nostálgicas sessões de cinema, mas deu para sentir na pele, como eram as expectativas da garotada. Realmente sua descrição foi carregada com detalhes que nos levam a tais sensações, parabéns!
    Mas ficam na memória as brincadeiras com revólveres de espoleta, cadeiras ou sofás que eram nossos cavalos, imitando Daniel Boone, ou quaisquer outros bons filmes da época.
    Excelente lembrança! Abraços!

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    1. Belo comentário Haroldo! Obrigado. Não são poucos anos a menos... rsrs. Nesse período, mudou muita coisa, inclusive as matinês ficaram descaracterizadas, pois a dinâmica era proporcionada pelos “Westerns B”, que além de terem custos de produção bastante menores, a duração dos filmes também era menor. Abração!

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