By Celso Ghebz Ghelardino Gutierre
A
“Cartilha Caminho Suave”, meu primeiro livro de alfabetização, sempre que vinha
à minha memória, estava relacionado à beleza de sua capa, onde um menino e uma
menina percorriam juntos por um caminho onírico, puro, suave, ao lado de uma
árvore de onde ao longe visualizava-se uma bela escola.
Em
determinado momento me perguntei: “Quem foi e como era a autora da obra”? Curioso,
nunca tinha ouvido nenhum comentário sobre ela. Fui pesquisar impulsionado
pelos sentimentos de gratidão e saudade. Encontrei no Google uma tese de
doutorado, a qual menciono no final desta crônica.
Dona
Branca, como era chamada, a paulista Branca Alves de Lima, ainda criança morou
no Ipiranga, na Liberdade e no Brás. Ao concluir o curso na Escola Normal do
Brás em 1929, aos 19 anos, iniciou o magistério em Jaboticabal, passando por
várias cidades do interior. A experiência a fez perceber a grande dificuldade
de aprendizado de parte considerável dos alunos, fato que em 1936 a inspirou a
associar imagens às silabas, conseguindo resultados animadores na alfabetização.
Quando
retornou à Capital, em uma escola no Brás, adotou seu método que, assim como
havia acontecido no interior, não foi bem recebido. Porém, após aplicar com
sucesso seu método em uma classe exclusiva de repetentes e de alguns alunos
especiais, visto que a visualização facilitava a fixação do conteúdo, retomou
seu sonho de criar uma cartilha. Incentivada por familiares e colegas do
magistério, por quatro anos preparou sua obra. Todavia, ao concluí-la em 1948,
nenhuma grande editora quis publicar. Determinada, ela utilizou todas as suas
economias e imprimiu cinco mil exemplares, destinando parte para propaganda. A
Cartilha começou a fazer sucesso e surgiu a ideia de criar sua própria editora
em 1950, a Editora Caminho Suave Ltda.
Era
Branca quem comandava a editora, muito embora não parasse de produzir,
escrevendo sempre na área da alfabetização, inclusive para crianças em idade
pré-escolar.
Morava
em um casarão antigo no Bairro da Liberdade que fora de seus pais, e onde
também trabalhava, usando dois aposentos para si e o restante para a Editora.
Nunca
se casou e, tampouco, teve filhos. Seu lazer era ler e assistir televisão ou ir
ao seu apartamento em Santos, mas preferia mesmo trabalhar em seus livros.
Talvez, através da criação/gestação de suas obras, atenuasse a sua solidão.
Com
o sucesso da sua cartilha, conseguiu adquirir vários imóveis na capital e no
interior, além do apartamento no litoral. Talvez a maior beneficiada pelo seu
sucesso de autora e empresária, tenha sido a família, a quem doou, ainda em
vida, casas e apartamentos. Aliás, sua empregada doméstica, também, foi objeto
de sua generosidade, recebendo uma casa.
Em
1990 ela deu uma entusiasmada entrevista sobre suas obras, e o sucesso de
vendas da sua criação preferida a “Cartilha Caminho Suave”, mal sabia ela que
em 1996 o Ministério de Educação e Cultura a consideraria inapropriada para a
alfabetização. Branca ficou sem chão, fato que parece não ter sido superado
pelo resto de sua vida. Por consequência, sua editora foi fechada em 1997.
A
revista Nova Escola, de 1996, em matéria de seis páginas sobre a polêmica da
retirada da Cartilha, dedicou um espaço de apenas três linhas a Branca, como se
fosse mera coadjuvante no processo educativo brasileiro.
A
Cartilha Caminho Suave é o livro escolar mais vendido na história do Brasil.
Seus números variam conforme a fonte, oscilando entre quarenta e sessenta
milhões de unidades vendidas. Especialistas em pedagogia afirmam que
"Caminho Suave" e a Cartilha Sodré (de Benedita Stahl Sodré) são os
únicos métodos realmente brasileiros de alfabetização em português.
A
editora Edipro, que assumiu os direitos de impressão, informa que ainda há
procura pela cartilha, cujas vendas oscilam em torno de dez mil unidades por ano.
Compras sustentadas por saudosistas e, que talvez prove o equívoco do MEC, e
realizadas por orientais para alfabetizar crianças imigrantes que aprendem com
maior facilidade através da obra de Branca.
Em
25 de janeiro de 2001, no Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo, aos
90 anos de idade, falece Branca.
Lamentavelmente,
o falecimento de Dona Branca não mobilizou o mundo educativo e nem a imprensa.
Não posso deixar de manifestar meu desapontamento pela falta de reconhecimento
à brilhante educadora, “A PROFESSORA QUE ENSINOU A ENSINAR”, que foi
praticamente esquecida nos anais da história brasileira.
Prof. Branca Alves de Lima
Referências de pesquisa
·
Tese de
doutoramento na Universidade Estadual de Campinas (2006) de Diane Valdez -
Universidade Federal de Goiás (UFG).
·
Wikipédia, a
enciclopédia livre.

Fui alfabetizada por esta cartilha assim como milhões de brasileiros, e a história da autora muito me comoveu ....acho que apesar dos avanços pedagógicos ela deveria continuar na alfabetização dos pequenos.
ResponderExcluirConcordo plenamente, até porque as poucas escolas que adotam o seu método têm resultados excelentes!
ExcluirMuito boa a história dessa grande educadora que, infelizmente, não foi devidamente reconhecida.A metodologia dela em associar imagens às sílabas facilita em muito o aprendizado.
ResponderExcluirSem dúvida nenhuma meu amigo! Abração! Ainda é usada em algumas escolas com absoluto sucesso. Vale ressaltar que é a preferida por estrangeiros que precisam aprender nosso idioma, principalmente crianças.
ExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirPuxa vida, bem na data de hoje? Foi um belo passeio no tempo. Àquelas imagens que mais pareciam uma cartela de cores. Para muitos, uma anônima. Fica a pergunta. De qualquer forma, foi lindo você ter resgatado e compartilhado conosco.
ResponderExcluirA data foi realmente oportuna, não é? Em alguns contos meu pseudônimo é "Viajante do Tempo" (antes do Augusto Cury usar), e não por acaso... A intenção foi prestar uma homenagem, ainda que simples, a essa grande mulher! Ah, passe-me seu nome!
ExcluirBom dia!
ResponderExcluirAcho que essa preciosa cartilha fez parte da alfabetização de todos nós!
Hoje, na atualidade vemos esses jovens com tantas deficiências de alfabetização, mesmo com tanta tecnologia. Eram métodos melhores, professores mais dedicados, etc....
Linda e merecida homenagem Celso, resgatando e expondo essa linda história de vida, que com certeza, cada um de nós tem um enorme carinho e saudades, lembrando da época e desse respectivo material em nossa alfabetização!
Boa noite Haroldo! Minha pesquisa encontrou a autora, sua missão e o seu esquecimento por parte da imprensa e até pela história. No final, minha singela homenagem à grande mulher que foi!
ExcluirConcordo com você. A cartilha Caminho Suave provou sua eficiência alfabetizando dezenas de milhões de crianças.
Boa noite Haroldo! Minha pesquisa encontrou a autora, sua missão e o seu esquecimento por parte da imprensa e até pela história. No final, minha singela homenagem à grande mulher que foi!
ResponderExcluirConcordo com você. A cartilha Caminho Suave provou sua eficiência alfabetizando dezenas de milhões de crianças.
Parabéns pelo texto e a belíssima história dessa educadora que tanto contribuiu com a alfabetização no Brasil.
ResponderExcluirFiz uma viagem no tempo!
Obrigado Silbene! A história dela é realmente linda!
ExcluirBela história, ainda mais no dia de hoje... Mais uma heroína que acabou sendo esquecida pela população brasileira! Bela homenagem meu amigo! Um grande abraço, Ivan Coral
ResponderExcluirBoa tarde, meu amigo! Sim, uma grande mulher que foi uma gigante, e infelizmente esquecida. Abração.
ExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
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