domingo, 7 de março de 2021

Caminho Suave, a cartilha

By Celso Ghebz Ghelardino Gutierre

A “Cartilha Caminho Suave”, meu primeiro livro de alfabetização, sempre que vinha à minha memória, estava relacionado à beleza de sua capa, onde um menino e uma menina percorriam juntos por um caminho onírico, puro, suave, ao lado de uma árvore de onde ao longe visualizava-se uma bela escola.

Em determinado momento me perguntei: “Quem foi e como era a autora da obra”? Curioso, nunca tinha ouvido nenhum comentário sobre ela. Fui pesquisar impulsionado pelos sentimentos de gratidão e saudade. Encontrei no Google uma tese de doutorado, a qual menciono no final desta crônica.

Dona Branca, como era chamada, a paulista Branca Alves de Lima, ainda criança morou no Ipiranga, na Liberdade e no Brás. Ao concluir o curso na Escola Normal do Brás em 1929, aos 19 anos, iniciou o magistério em Jaboticabal, passando por várias cidades do interior. A experiência a fez perceber a grande dificuldade de aprendizado de parte considerável dos alunos, fato que em 1936 a inspirou a associar imagens às silabas, conseguindo resultados animadores na alfabetização.

Quando retornou à Capital, em uma escola no Brás, adotou seu método que, assim como havia acontecido no interior, não foi bem recebido. Porém, após aplicar com sucesso seu método em uma classe exclusiva de repetentes e de alguns alunos especiais, visto que a visualização facilitava a fixação do conteúdo, retomou seu sonho de criar uma cartilha. Incentivada por familiares e colegas do magistério, por quatro anos preparou sua obra. Todavia, ao concluí-la em 1948, nenhuma grande editora quis publicar. Determinada, ela utilizou todas as suas economias e imprimiu cinco mil exemplares, destinando parte para propaganda. A Cartilha começou a fazer sucesso e surgiu a ideia de criar sua própria editora em 1950, a Editora Caminho Suave Ltda.

Era Branca quem comandava a editora, muito embora não parasse de produzir, escrevendo sempre na área da alfabetização, inclusive para crianças em idade pré-escolar.

Morava em um casarão antigo no Bairro da Liberdade que fora de seus pais, e onde também trabalhava, usando dois aposentos para si e o restante para a Editora.

Nunca se casou e, tampouco, teve filhos. Seu lazer era ler e assistir televisão ou ir ao seu apartamento em Santos, mas preferia mesmo trabalhar em seus livros. Talvez, através da criação/gestação de suas obras, atenuasse a sua solidão.

Com o sucesso da sua cartilha, conseguiu adquirir vários imóveis na capital e no interior, além do apartamento no litoral. Talvez a maior beneficiada pelo seu sucesso de autora e empresária, tenha sido a família, a quem doou, ainda em vida, casas e apartamentos. Aliás, sua empregada doméstica, também, foi objeto de sua generosidade, recebendo uma casa.

Em 1990 ela deu uma entusiasmada entrevista sobre suas obras, e o sucesso de vendas da sua criação preferida a “Cartilha Caminho Suave”, mal sabia ela que em 1996 o Ministério de Educação e Cultura a consideraria inapropriada para a alfabetização. Branca ficou sem chão, fato que parece não ter sido superado pelo resto de sua vida. Por consequência, sua editora foi fechada em 1997.

A revista Nova Escola, de 1996, em matéria de seis páginas sobre a polêmica da retirada da Cartilha, dedicou um espaço de apenas três linhas a Branca, como se fosse mera coadjuvante no processo educativo brasileiro. 

A Cartilha Caminho Suave é o livro escolar mais vendido na história do Brasil. Seus números variam conforme a fonte, oscilando entre quarenta e sessenta milhões de unidades vendidas. Especialistas em pedagogia afirmam que "Caminho Suave" e a Cartilha Sodré (de Benedita Stahl Sodré) são os únicos métodos realmente brasileiros de alfabetização em português.

A editora Edipro, que assumiu os direitos de impressão, informa que ainda há procura pela cartilha, cujas vendas oscilam em torno de dez mil unidades por ano. Compras sustentadas por saudosistas e, que talvez prove o equívoco do MEC, e realizadas por orientais para alfabetizar crianças imigrantes que aprendem com maior facilidade através da obra de Branca.

Em 25 de janeiro de 2001, no Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo, aos 90 anos de idade, falece Branca.

Lamentavelmente, o falecimento de Dona Branca não mobilizou o mundo educativo e nem a imprensa. Não posso deixar de manifestar meu desapontamento pela falta de reconhecimento à brilhante educadora, “A PROFESSORA QUE ENSINOU A ENSINAR”, que foi praticamente esquecida nos anais da história brasileira. 

 

Prof. Branca Alves de Lima


Referências de pesquisa

·         Tese de doutoramento na Universidade Estadual de Campinas (2006) de Diane Valdez - Universidade  Federal de Goiás (UFG).

·         Wikipédia, a enciclopédia livre.

 

15 comentários:

  1. Fui alfabetizada por esta cartilha assim como milhões de brasileiros, e a história da autora muito me comoveu ....acho que apesar dos avanços pedagógicos ela deveria continuar na alfabetização dos pequenos.

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    1. Concordo plenamente, até porque as poucas escolas que adotam o seu método têm resultados excelentes!

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  2. Muito boa a história dessa grande educadora que, infelizmente, não foi devidamente reconhecida.A metodologia dela em associar imagens às sílabas facilita em muito o aprendizado.

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    1. Sem dúvida nenhuma meu amigo! Abração! Ainda é usada em algumas escolas com absoluto sucesso. Vale ressaltar que é a preferida por estrangeiros que precisam aprender nosso idioma, principalmente crianças.

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  3. Puxa vida, bem na data de hoje? Foi um belo passeio no tempo. Àquelas imagens que mais pareciam uma cartela de cores. Para muitos, uma anônima. Fica a pergunta. De qualquer forma, foi lindo você ter resgatado e compartilhado conosco.

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    1. A data foi realmente oportuna, não é? Em alguns contos meu pseudônimo é "Viajante do Tempo" (antes do Augusto Cury usar), e não por acaso... A intenção foi prestar uma homenagem, ainda que simples, a essa grande mulher! Ah, passe-me seu nome!

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  4. Bom dia!
    Acho que essa preciosa cartilha fez parte da alfabetização de todos nós!
    Hoje, na atualidade vemos esses jovens com tantas deficiências de alfabetização, mesmo com tanta tecnologia. Eram métodos melhores, professores mais dedicados, etc....
    Linda e merecida homenagem Celso, resgatando e expondo essa linda história de vida, que com certeza, cada um de nós tem um enorme carinho e saudades, lembrando da época e desse respectivo material em nossa alfabetização!

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    1. Boa noite Haroldo! Minha pesquisa encontrou a autora, sua missão e o seu esquecimento por parte da imprensa e até pela história. No final, minha singela homenagem à grande mulher que foi!
      Concordo com você. A cartilha Caminho Suave provou sua eficiência alfabetizando dezenas de milhões de crianças.

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  5. Boa noite Haroldo! Minha pesquisa encontrou a autora, sua missão e o seu esquecimento por parte da imprensa e até pela história. No final, minha singela homenagem à grande mulher que foi!
    Concordo com você. A cartilha Caminho Suave provou sua eficiência alfabetizando dezenas de milhões de crianças.

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  6. Parabéns pelo texto e a belíssima história dessa educadora que tanto contribuiu com a alfabetização no Brasil.
    Fiz uma viagem no tempo!

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  7. Bela história, ainda mais no dia de hoje... Mais uma heroína que acabou sendo esquecida pela população brasileira! Bela homenagem meu amigo! Um grande abraço, Ivan Coral

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    1. Boa tarde, meu amigo! Sim, uma grande mulher que foi uma gigante, e infelizmente esquecida. Abração.

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