Anno Domini CXX
(Anno
Domini, Ano do Senhor)
(Ano
120, depois de Cristo)
By Celso Ghebz Ghelardino Gutierre
A manhã traz leve
brisa a soar como doce música, única lembrança da noite que se recolheu.
O
céu traz as cores da alvorada em tons laranja e vermelho, que em instantes
seriam matizadas pelo azul.
Variados pássaros
riscam o céu gorjeando em perfeita harmonia.
As águas gélidas e
cristalinas do riacho ao descer das montanhas serpenteiam os obstáculos sem
lamentos, apenas acontecem, cumprindo seu destino.
A natureza
apresenta-se em plenitude, em cada folha de árvore, em cada pétala de flor e no
viço da relva.
A paz é ouvida em
uníssono por todo aquele ermo... até que se sente leve tremor no solo.
A intensidade eleva-se
continuamente e na sequência descobre-se que o som é a revelação das pisadas
fortes e rítmicas dos seis mil soldados da IX Legião Romana, conhecida por “Legio
IX Hispana”. À frente da coluna estão o
estandarte e a águia de ouro, símbolos do poder do Império.
O tribuno Octavio
Maximus, que comandava a primeira das seis “coortes”¹ de infantaria, aproxima-se
do General comandante, Titus Virilus, e após a saudação militar pede permissão
para falar. Autorizado, manifesta preocupação dizendo: - Comandante, sinto que
estamos sendo observados pelos Caledônios², visto que há dois dias atravessamos
a muralha de Adriano.
Eu também pressinto,
diz Titus. Octavio não tem tempo para responder, pois neste exato momento o
horizonte próximo é tomado pelos inimigos que se posicionam.
Imediatamente Titus
ordena a Octavio que volte à sua coorte e manda soar o alerta de combate. As
seis coortes, com mil homens cada, entram em formação de combate, enquanto a
cavalaria composta de dez esquadrões de trinta homens, aguarda – impaciente
nesses momentos que antecipam o confronto –, o comando para a carga. O general
ordena que a artilharia entre em ação imediatamente. As balistas lançam dardos
enormes; a seguir os arqueiros disparam sem cessar verdadeira nuvem de flechas.
Sem perda de tempo segue-se a ordem para a carga da cavalaria. Os cavalos saem
a todo galope com os guerreiros romanos apontando suas lanças para a frente,
trava-se rápida e feroz batalha, todavia, a cavalaria é destroçada. A
infantaria posiciona-se na formação tática “testudo” onde os soldados juntam os
escudos, formando como que uma proteção “blindada”, para se protegerem das
flechas e lanças. É com surpresa que os
romanos observam que, além dos inimigos à frente agora eles estão na retaguarda
e, também, nos flancos, são dezenas de milhares.
Uma vez cercados o General Titus Virilus
dirige-se à sua legião dizendo: “Soldados do Império Romano, conto com vocês! É
chegado o momento de mostrarmos nossa lealdade ao César, repitam comigo –
"Ave Caesar, morituri te salutant" (“Ave, César, aqueles que estão
prestes a morrer o saúdam”).
E, assim partem para
a luta corpo a corpo usando lanças e gládios.
A luta é feroz, ouvem-se gritos horríveis, frutos de dor lancinante até quando nada mais se
ouve. Reina o silêncio mortal. A nona Legião não mais existe...
O quadro é dantesco
o sangue, cujo cheiro lembra o da ferrugem do ferro, tinge de vermelho as cores
do campo, gládios reluzem ao sol ao lado do couro e das peças de bronze que cobrem parte dos
corpos desfigurados....Aos milhares, de ambos os lados, espalham-se por
todo o palco da batalha.
Quebrando a tétrica
cena, percebe-se dois tênues raios de luz descendo e parando a alguns metros do
solo. Em seguida, em tom azulado, a intensidade de ambas aumenta, ouve-se,
então, uma voz que comenta com pesar a cena observada.
– É verdade, a
natureza se manifestou esplendorosa ao amanhecer, todavia, o homem ainda não
consegue sentir e apreciar o que recebe por dádiva. Sophia, então, responde a Lucas.
– Infelizmente,a
sutileza da energia do amor não penetrou a fortaleza dos corações
endurecidos...
– Quanto tempo ainda
veremos isso Lucas?
– Muitos séculos
minha amiga, muitos séculos.... Um dia o homem perceberá que cabe a ele
escolher a paz ou a batalha de sentimentos para o seu dia a dia.
¹Coortes – As Legiões Romanos, em média e em determinado
período, possuíam seis mil soldados na infantaria e artilharia e mais trezentos
na cavalaria. Cada “Coorte” compunha-se de mil homens e era comandada por um
Tribuno (oficial superior). A “Coorte” por sua vez era composta por dez
centúrias (100 homens), comandada por um Centurião (oficial subalterno). Cada
Centúria era formada por dez Decúrias (10 homens), comandada por um Decano
(suboficial). Aliás os GC (Grupos de Combate) dos exércitos de hoje, também,
possuem 10 soldados. As semelhanças não param por aí.
²Caledônios – povos que viviam na antiga Caledônia, atual
Escócia.

Fantástico texto, meu amigo. História, reflexão, tristeza...tudo está aí. Parabéns.
ResponderExcluirObrigado!!! Grande abraço!
ResponderExcluirBela narrativa, caro amigo. Faz lembrar dos grandes épicos do cinema. Aquele abraço!
ResponderExcluirValeu Thomaz! A proposta é a reflexão da irracionalidade das guerras, mas, sem dúvida, lembra sim os épicos. Abração!
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